Quase nunca sei porque o penso, porque o imagino, porque o desejo. Quase nunca sei porque o quero, se o quero. Quase nunca faz sentido. Nunca lhe encontrei nenhum. Então é provável que não o haja. Deve ser por isso que acontece, inevitavelmente, para que eu perceba que há coisas sem sentido. E irrito-me, nesta inquietude estúpida que não me deixa descrever a realidade, o peso e a forma do que sinto. Mesmo sem sentido tem que haver um porquê, uma razão. Um motivo. Um motivo até é capaz de haver mas um motivo não é um porquê, porque o motivo vem de nós e o porquê vem do acaso e o acaso não existe. E assim me vou enganando e camuflando em rodeios sem fim e raciocínios divagantes, para que me possa esconder, para que possa fugir da verdade que eu própria desconheço, para que não possa cair de joelhos e dizer aquilo que é com as palavras certas. Não existem palavras certas para descrever sentimentos que não queremos sentir. Aquilo que é não existe. É como uma espécie de sarampo mental que vou aprendendo, ainda que com alguma dificuldade, a não coçar, a resistir. Não sei se o sarampo mental tem cura.Não sei se é uma doença boa ou má. É o saber que não há por onde fugir que nos prende de verdade. Que nos ata as mãos, os pés e a consciência.
Friday, February 15, 2008
Inevitavelmente
Paradoxos e analogias surgem na minha mente numa tentativa desesperada de me explicar. Deito as mãos aos olhos e com eles tapados digo em voz alta: Se tenho que deixar alguma coisa por explicar que seja esta. E repetindo sem sentido o que não o tem, vou-me recostando lentamente, com um sorriso que não entendo, até me conformar que apenas na suavidade dos meus movimentos e na velocidade do meu pensamento reside o motivo pelo qual não te deixo escapar.
Encontras-te sempre à espreita na esquina do acaso que me confunde.
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