Ia encolhida com o frio. Não aquele que gelava a rua onde eu estava. Não esse. Mas aquele que me gelava o peito. Aquele frio interior que só os tontos sentem, era esse que não me abandonava.
Continuei a andar na esperança que um deles passasse.
Continuei a percorrer o caminho de casa até que ele me levasse até mim. Não podia entrar em casa sem mim. Não outra vez. Corria o risco de ficar sentada, a noite toda, no telhado da minha inocência a observar as estrelas e a admirar uma, aquele pequeno ponto... até me fazer dele, até o fazer meu.
Encontrei-me e a minha inocência de nada me valeu.
Entrei em casa. No quarto quente a vela e o incenso confortavam-me. Tudo, aliás, me confortava no meu quarto. Tudo era meu. As paredes pintadas de ausência e o tecto de ilusões segredavam-me ao ouvido que existiam, quer eu quizesse, quer não. Entre as histórias que me contavam, perdiam-se os meus pensamentos de pimenta preta, romã e anis, que de tão bem guardados nunca poderiam ser percebidos se não fossem descobertos.
Sentia em mim o mundo mas não me sentia nele. Suspensa, algures, nesta corda invisível que me levava para lá, perto dos meus sonhos, onde me perdia e encontrava vezes sem conta, desenhando gestos impossíveis e colorindo passos com magia. Lá, longe do que existe.
E encolhida fechei os olhos e deixei-me ir, iludida pelo sonho de que me pudessem acordar.
" Quanto mais nos elevamos, menores nos parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar."
Friedrich Nietzche
