Friday, October 31, 2008




Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude científica. Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprio. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural. A coerência, a convicção, a certeza são além disso, demonstrações evidentes — quantas vezes escusadas — de falta de educação. É uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é maçá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade. Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter, não crenças religiosas, opiniões políticas, predileções literárias, mas sensações religiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária.


Certos estados de alma da luz, certas atitudes da paisagem têm, sobretudo quando excessivos, o direito de exigir a quem está diante deles determinadas opiniões políticas, religiosas e artísticas, aqueles que eles insinuem, e que variarão, como é de entender, consoante esse exterior varie. O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua inteligência espelhos do ambiente transitório: é republicano de manhã, e monárquico ao crepúsculo; ateu sob um sol descoberto, é católico ultramontano a certas horas de sombra e de silêncio; e não podendo admitir senão Mallarmé àqueles momentos do anoitecer citadino em que desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo uma invenção de louco quando, ante uma solidão de mar, ele não souber de mais do que da "Odisseia". Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam d'essa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida.


Quando é que despertaremos para a justa noção de que política, religião e vida social? (...) Só quando uma humanidade livre dos preconceitos de sinceridade e coerência tiver acostumado as suas sensações a viverem independentemente, se poderá conseguir qualquer coisa de beleza, elegância e serenidade na vida.


Fernando Pessoa, in 'Idéias Políticas'

Friday, October 24, 2008



Uma pena branca de uma asa que conheço bem veio ter a meus pés.
Um anjo tocou-me.

Wednesday, October 22, 2008



Wednesday, October 15, 2008

Green Day

"Em 2004, os Green Day decidiram fazer o maior álbum da carreira deles sem hesitar e sem ceder a nada. O mais recente álbum, American Idiot, foi visto como um dos maiores álbuns de todos os tempos. Foi mais do que um álbum conceptual, mais do que uma ópera rock e durava mais de 60 minutos. Foi o álbum que trouxe de volta os tempos em que podíamos ler as letras, sentados no quarto, cantando a música. O álbum iniciou um culto de pessoas que seguravam as granadas em forma de coração e alcançou uma geração que se identificou com as personagens. American Idiot deu-nos orgulho de sermos quem somos e das nossas origens." E agora, estão quase de volta, a gravar o próximo álbum com o produtor Butch Vig (dos Garbage e Nirvana). We are waiting...



Monday, October 6, 2008





So, so you think you can tell
Heaven from Hell
blue skies from pain
can you tell a green field
from a cold steel rail?
a smile from a veil
do you think you can tell?
and did they get you to trade
your heroes for ghosts?
hot ashes for trees?
hot air for a cool breeze?
cold comfort for change?
and did you exchange
a walk on part in the war
for a lead role in a cage?
How I wish
how I wish you were here
we're just two lost souls
swimming in a fish bowl
year after year
running over the same old ground
what have you found?
the same old fears
Wish you were here

Thursday, October 2, 2008

Estava sentada no topo do meu mundo, quando alguém mencionou o teu nome atingindo-me como uma bala. Nome esse que já esqueci. Que nunca quis lembrar. Que lembrei e esqueci, da mesma forma que me lembrei e esqueci do raciocínio que estava comigo naquele momento. Eu sou assim. Gosto de escrever sobre coisas que me lembro e esqueço. Porque assim posso escrever sobre tudo ao mesmo tempo que o ignoro. É fácil assim. Já dizia o Poeta... " Sentir, sinta quem lê. " A lógica é exaustiva e inutil, tal como as falsas construções mentais que vou criando, aqui e ali. Nos intervalos, construo mais, e, entre essas outras, surgem outras tantas que me invadem o corpo, com um ardor platinado desigual. Nesse momento não há hipóteses alternativas, lógica, pensamento, raciocínio, saída. Arde e alastra-se por todo o ser, como se o sangue se evaporasse. Como reacção, apenas um fechar de olhos e um abrir de mãos. É demasiado puro e bruto. Demasiado involuntário e profundo. Entranhado, tatuado. Simples. Livre. Os delírios da mente são outra coisa. Criados para saciar carências rebuscadas de infinito. Capacidade inesgotável esta que temos para o tentar atingir, sempre. Quando se abrem, das mãos, nunca nos pode cair muito. Não temos nada nelas, nunca teremos. Tudo o que se permita ser possuído, nada mais é que a ilusão daquilo que queremos possuir. Não podem coexistir no mesmo mundo. Não é essa a essência. Perde-se a essência e a lógica. Lógica inexistente aqui, e por isso nunca poderão entender. Mas há a possibilidade de criar uma intrepretação própria, que faça lógica, mas essa lógica será diferente da minha, porque a minha não existe, faz parte da ilusão. E não é que ela não exista, mas nada do que existe nela existe sempre da mesma forma. São lógicas diferentes a partir de uma que, aparentemente, não existe. Será falsa? Cansa um pouco. Sim. Que se foda a lógica. É demasiado limitadora para mim que sou livre em ilusão. Mesmo sem fechar os olhos sonho. É quando mais gosto. Inspiro-me em tudo, deixo que tudo me invada e arrebate, crio para mim algo perfeito, em que as imperfeições são por mim escolhidas e justificadas. É só um sonho. Somos feitos de tudo, inclusive de sonhos. Fechamos sempre os olhos em intensos momentos de dor e prazer. Quando os fechamos, viajamos. Eu viajo para a realidade. Foi por isso que os fechei, no meu mundo não pude encontrar a resposta. Rendi-me ao descontrole dos dois mundos, e perdida entre eles não me lembrei de pensar. Nada dura muito nessa dimensão.

 
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