Hoje nem liguei a televisão. Entreguei-me ao desespero do nada, do não sentir, da falta.
O raciocínio deu lugar ao vazio, ao inócuo, a sensações que não existem, que não têm nome, que ainda não foram inventadas.
Deixei-me estar. Não me consegui mover, como se fosse necessário estar. Não fiz jantar, deixei-me estar.
No meio do tentar perceber e não entender, dei comigo a pensar que se nunca tivéssemos sono enlouqueceríamos na tentativa de explicar o que não sabemos; de compreender o que não conhecemos; de sentir o que ainda não vivemos; de possuir o que não temos; de imaginar o que não vemos; de sentir o que não está e de deixar de querer o que não pedimos.
Levantei-me, comi qualquer coisa e acendi um cigarro.
Não resisti, fiquei imóvel a ouvi-la chegar, a calma inquieta que me torturava no silêncio do pensar e me tirava o sabor e a vontade.
Foi então que senti que naquele momento não tinha nada. Era verdade, não tinha nada...Mas mesmo o nada é sempre alguma coisa.
Então despertei e lembrei-me que me podia lembrar, lembrar-me do que tive e recordar as ilusões. Lembrei-me de viver e percebi que ás vezes o mundo lá fora pode deixar de existir...
Afinal não estava louca, tinha sono.